"Repara bem no que não digo"
P. Leminski
Parei para prestar atenção no som do mar. A balsa ia tão lenta que se tornava possível sentir o impacto de cada marola na superfície metálica. Mesmo impacto, porém mais intenso, se dava em meu corpo. Cada milímetro de mim parecia conversar diretamente com a água. E eu observava: os fluídos levavam e traziam peixes, mariscos, pedras e entulhos, assim como algo dentro de mim parecia fazer com a imagem dela.
Perdi o olhar no horizonte. A única imagem disponível, a partir desse momento, era a do seu sorriso estonteante. Sorria, de fato, com os olhos. Lindos olhos negros - negros como a noite. Sua pele oliva, quente, delgada; seu corpo macio; seus longos cachos cor de terra combinavam com absolutamente tudo ao redor dela. Principalmente com o meu coração.
Mas agora ela era só uma lembrança...leve como uma brisa, rápida como o vento. Lembro-me como se seu último devaneio tivesse acontecido um minuto atrás: a lágrima salgada e densa que percorria seu belíssimo rosto, a mão que jogava para mim o envelope dourado e apertava o vestido, a volta do corpo em torno de si mesma e, finalmente, o salto. O último ato.
Dentro do envelope, um bilhete. Poucas palavras, que me acertaram como um martelo:
"Amei-te acima de tudo. Doía em mim, tanto quanto em ti, vê-lo afundado em bebidas, ópio e mulheres da vida. Nada disso era preciso. Desdobrei-me em milhares para ajudar-te a superar a perda de teu pai, mas tu nunca aceitaste minha ajuda. Amei-te acima de tudo. Não suporto mais ver a tua dor. Dói mais em mim, que me desfaço e me reconstruo para alegrar-te, sem nenhum sucesso. Eu definho sem que tu percebas."
Chovia lá fora. Choveu muito mais aqui dentro.
Recobrei a consciência quando a balsa chegou ao seu destino. Percebi, então, que havia matado o meu grande amor, sem ao menos perceber. E quantas vezes minha amada não tentou me dizer o quanto minha frieza a machucava? E quantas vezes minha amada não tentou acalmar meu sofrimento e eu a rejeitei por outra qualquer? Ah!, se o sofrimento a trouxesse de volta...Pesar não me faltaria! Porque ali, naquela balsa, minha dor se fez oceano e desaguou no infinito.
Desconhecida Psiquê
Demonstração de que amor (e alma) tem fim em si mesmo.
segunda-feira, 28 de abril de 2014
quarta-feira, 2 de abril de 2014
Entre uma Garrafa e Outra
Não nos passa de obrigação
Acordar cedo, ganhar o pão
Que desce seco
denso
suplicando!
Por um único dia que seja exceção.
Mas não há cálculo ou
[remédio
Que suportável torne essa vida!
N'um dia se toma gole de tédio
N'outro, aceita-se um gole de rima.
Acordar cedo, ganhar o pão
Que desce seco
denso
suplicando!
Por um único dia que seja exceção.
Mas não há cálculo ou
[remédio
Que suportável torne essa vida!
N'um dia se toma gole de tédio
N'outro, aceita-se um gole de rima.
domingo, 16 de fevereiro de 2014
Transcendental
Tua aparição foi miraculosa!
Trouxeste, enfim, Luz contigo
E deixaste minh'alma em polvorosa.
Não era preciso mais nenhum testigo:
Ainda que a vida não tivesse dado sinal
Esta flama não era o princípio,
Mas afeição - quem diria?! -
Transcendental.
E deixaste minh'alma em polvorosa.
Não era preciso mais nenhum testigo:
Ainda que a vida não tivesse dado sinal
Esta flama não era o princípio,
Mas afeição - quem diria?! -
Transcendental.
quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014
Eram três da manhã e eu estava sentado naquela poltrona da sala de estar. Sua cor era vermelho-sangue, e parecia supor o que estava prestes a acontecer.
A poltrona se situava a 10 ou 15 passos da lareira, que ardia em chamas. Ficava de costas para a porta de entrada.
Do lado oposto ao da poltrona ficava o restante da sala, onde as coisas aconteciam, as pessoas sentavam, conversavam, bebiam. Eu ficava quase sempre ali, sentado, sozinho. Eu me isolava para não ter de partilhar a atenção de minha esposa com as pessoas que nos visitavam. Preferia assisti-la de longe, admirar a sua beleza única, singular, a alguns metros de distância. Ela parecia muito mais bonita assim, interagindo com outras pessoas. Quando recebíamos visitas, ou quando ela fazia algum tipo de comemoração em casa, eu observava o quão bela ela ficava conversando, compartilhando sua vida com os outros. Admirava desde a maneira como ela segurava a taça de vinho tinto, até a forma como colocava os longos cabelos loiros pra trás. Parecia uma deusa. Talvez o fosse, em verdade.
Mas em algumas noites eu não a admirava tanto assim. Em algumas noites, na verdade, eu a odiava. Principalmente quando eu saia para beber e, ao voltar, reparava que ela sempre desligava o telefone com muita pressa ao ouvir meus passos se aproximando da porta do nosso quarto, no fim do corredor. Isso me intrigava profundamente, afinal, pra que tanta pressa assim? O que aquela vadia estava escondendo de mim? Estava ela, por acaso, marcando encontros furtivos com um amante qualquer? Eu não duvido nada de que fosse isso, afinal, eu nunca pude dar a ela uma boa noite de amor. Ela era jovem, estava na flor da idade, e eu já era um velho fracassado quando nos conhecemos. Eu depositei nela tudo o que estava dentro de mim, e o único retorno possível foi ver a fatura do meu cartão de crédito chegando cada vez mais alta.
[Pausa para o café]
Numa dessas minhas saídas de beberrão, cheguei em casa e não a encontrei. Era por volta de vinte e uma horas do dia de hoje, mas ela, que deveria estar em casa preparando algo para que eu comesse ao regressar, não estava. Vasculhei cada canto, abri até mesmo os armários, mas ela não estava lá.
Às três da manhã, ela chegou. Cheirava a cigarro, à bebida, a sêmen recém fecundo, daquela textura e aroma tão indecorosos e luxuriantes, ariscos ao meu nariz, mas certamente deliciosos aos seus desejos libidinosos. Eu sabia. Ela tinha outro.
De onde eu estava, ela não conseguia me ver. Aproximou-se da lareira para apagá-la quando eu a surpreendi. Puxei-a pelos longos cabelos e joguei-a longe, próxima à mesinha de centro. O olhar que me foi lançado era de puro espanto, mas eu estava sendo engolido por uma onda de muita raiva. Empunhei a peixeira que estava aguardando por esse momento e não pensei duas vezes. Um. Dois. Três. Quatro. Oito. Foram oito golpes até que eu me dei por mim: aquele sangue que agora se espalhava pelo taco da sala e que manchara minhas mãos amaldiçoaria todo o resto da minha vida.
Narrativa escrita em meados de novembro de 2013.
*Colaboração de Fernando Borges Weimer.
A poltrona se situava a 10 ou 15 passos da lareira, que ardia em chamas. Ficava de costas para a porta de entrada.
Do lado oposto ao da poltrona ficava o restante da sala, onde as coisas aconteciam, as pessoas sentavam, conversavam, bebiam. Eu ficava quase sempre ali, sentado, sozinho. Eu me isolava para não ter de partilhar a atenção de minha esposa com as pessoas que nos visitavam. Preferia assisti-la de longe, admirar a sua beleza única, singular, a alguns metros de distância. Ela parecia muito mais bonita assim, interagindo com outras pessoas. Quando recebíamos visitas, ou quando ela fazia algum tipo de comemoração em casa, eu observava o quão bela ela ficava conversando, compartilhando sua vida com os outros. Admirava desde a maneira como ela segurava a taça de vinho tinto, até a forma como colocava os longos cabelos loiros pra trás. Parecia uma deusa. Talvez o fosse, em verdade.
Mas em algumas noites eu não a admirava tanto assim. Em algumas noites, na verdade, eu a odiava. Principalmente quando eu saia para beber e, ao voltar, reparava que ela sempre desligava o telefone com muita pressa ao ouvir meus passos se aproximando da porta do nosso quarto, no fim do corredor. Isso me intrigava profundamente, afinal, pra que tanta pressa assim? O que aquela vadia estava escondendo de mim? Estava ela, por acaso, marcando encontros furtivos com um amante qualquer? Eu não duvido nada de que fosse isso, afinal, eu nunca pude dar a ela uma boa noite de amor. Ela era jovem, estava na flor da idade, e eu já era um velho fracassado quando nos conhecemos. Eu depositei nela tudo o que estava dentro de mim, e o único retorno possível foi ver a fatura do meu cartão de crédito chegando cada vez mais alta.
[Pausa para o café]
Numa dessas minhas saídas de beberrão, cheguei em casa e não a encontrei. Era por volta de vinte e uma horas do dia de hoje, mas ela, que deveria estar em casa preparando algo para que eu comesse ao regressar, não estava. Vasculhei cada canto, abri até mesmo os armários, mas ela não estava lá.
Às três da manhã, ela chegou. Cheirava a cigarro, à bebida, a sêmen recém fecundo, daquela textura e aroma tão indecorosos e luxuriantes, ariscos ao meu nariz, mas certamente deliciosos aos seus desejos libidinosos. Eu sabia. Ela tinha outro.
De onde eu estava, ela não conseguia me ver. Aproximou-se da lareira para apagá-la quando eu a surpreendi. Puxei-a pelos longos cabelos e joguei-a longe, próxima à mesinha de centro. O olhar que me foi lançado era de puro espanto, mas eu estava sendo engolido por uma onda de muita raiva. Empunhei a peixeira que estava aguardando por esse momento e não pensei duas vezes. Um. Dois. Três. Quatro. Oito. Foram oito golpes até que eu me dei por mim: aquele sangue que agora se espalhava pelo taco da sala e que manchara minhas mãos amaldiçoaria todo o resto da minha vida.
Narrativa escrita em meados de novembro de 2013.
*Colaboração de Fernando Borges Weimer.
terça-feira, 4 de fevereiro de 2014
Pandemônio
A tua função em minha vida
É aguçar-me os sentidos:
Permitir que meus olhos
Sintam o gosto da tua boca.
Que minhas papilas gustativas
Admirem tuas mãos.
Que meus dedos estejam sempre atentos
Ao som dos teus pés limpando o sapato à porta.
Que meus ouvidos observem
Teu caminhar em direção a mim.
E que só o teu cheiro desfaça
Essa confusão
Que o temor do meu coração
Fez desse rebuliço amor, enfim.
É aguçar-me os sentidos:
Permitir que meus olhos
Sintam o gosto da tua boca.
Que minhas papilas gustativas
Admirem tuas mãos.
Que meus dedos estejam sempre atentos
Ao som dos teus pés limpando o sapato à porta.
Que meus ouvidos observem
Teu caminhar em direção a mim.
E que só o teu cheiro desfaça
Essa confusão
Que o temor do meu coração
Fez desse rebuliço amor, enfim.
quinta-feira, 23 de janeiro de 2014
Desassossegos
Chegaste suave, feito Primavera. Foste brisa leve, céu limpo reverenciando o luar. Foste o respeitoso azul cintilando a poeira estelar. Floresceste. Coloriste. Desabrochaste.
Daí viraste Verão. Com todo o calor do Sol, escaldaste meu mês inteiro. Trouxeste pés na areia e cores quentes. Mas também chuva torrencial. Breve, mas com o poder de tornar alvoroçado o mar que dantes era calmaria.
Reverteu-se o tempo e te mostraste frio como o Outono. As folhas, abatidas, foram ao chão. Teu céu era nuvioso, exibido em gris. Tuas manhãs eram frias e tuas noites traziam ventos que entoavam sons para uma janela só.
Finalmente, apontaste para a direção do Inverno. Não havia flores nem sol. Os dias morriam antes mesmo de nascer. Transformaste o cosmos em escuridão e abandonaste-me ali, em meio à neve que invadiu o espaço do teu coração.
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