segunda-feira, 28 de abril de 2014

Untitled

"Repara bem no que não digo"
                                   P. Leminski

Parei para prestar atenção no som do mar. A balsa ia tão lenta que se tornava possível sentir o impacto de cada marola na superfície metálica. Mesmo impacto, porém mais intenso, se dava em meu corpo. Cada milímetro de mim parecia conversar diretamente com a água. E eu observava: os fluídos levavam e traziam peixes, mariscos, pedras e entulhos, assim como algo dentro de mim parecia fazer com a imagem dela. 
Perdi o olhar no horizonte. A única imagem disponível, a partir desse momento, era a do seu sorriso estonteante. Sorria, de fato, com os olhos. Lindos olhos negros - negros como a noite. Sua pele oliva, quente, delgada; seu corpo macio; seus longos cachos cor de terra combinavam com absolutamente tudo ao redor dela. Principalmente com o meu coração.
Mas agora ela era só uma lembrança...leve como uma brisa, rápida como o vento. Lembro-me como se seu último devaneio tivesse acontecido um minuto atrás: a lágrima salgada e densa que percorria seu belíssimo rosto, a mão que jogava para mim o envelope dourado e apertava o vestido, a volta do corpo em torno de si mesma e, finalmente, o salto. O último ato.
Dentro do envelope, um bilhete. Poucas palavras, que me acertaram como um martelo:

"Amei-te acima de tudo. Doía em mim, tanto quanto em ti, vê-lo afundado em bebidas, ópio e mulheres da vida. Nada disso era preciso. Desdobrei-me em milhares para ajudar-te a superar a perda de teu pai, mas tu nunca aceitaste minha ajuda. Amei-te acima de tudo. Não suporto mais ver a tua dor. Dói mais em mim, que me desfaço e me reconstruo para alegrar-te, sem nenhum sucesso. Eu definho sem que tu percebas."


Chovia lá fora. Choveu muito mais aqui dentro.

Recobrei a consciência quando a balsa chegou ao seu destino. Percebi, então, que havia matado o meu grande amor, sem ao menos perceber. E quantas vezes minha amada não tentou me dizer o quanto minha frieza a machucava? E quantas vezes minha amada não tentou acalmar meu sofrimento e eu a rejeitei por outra qualquer? Ah!, se o sofrimento a trouxesse de volta...Pesar não me faltaria! Porque ali, naquela balsa, minha dor se fez oceano e desaguou no infinito.

quarta-feira, 2 de abril de 2014

Entre uma Garrafa e Outra

Não nos passa de obrigação
Acordar cedo, ganhar o pão
Que desce seco
denso
suplicando!
Por um único dia que seja exceção.

Mas não há cálculo ou 
[remédio
Que suportável torne essa vida!
N'um dia se toma gole de tédio
N'outro, aceita-se um gole de rima.