domingo, 16 de fevereiro de 2014

Transcendental

Tua aparição foi miraculosa!
        Trouxeste, enfim, Luz contigo
E deixaste minh'alma em polvorosa.

Não era preciso mais nenhum testigo:
Ainda que a vida não tivesse dado sinal
Esta flama não era o princípio,
Mas afeição  - quem diria?! -

Transcendental.








quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Eram três da manhã e eu estava sentado naquela poltrona da sala de estar. Sua cor era vermelho-sangue, e parecia supor o que estava prestes a acontecer.

A poltrona se situava a 10 ou 15 passos da lareira, que ardia em chamas. Ficava de costas para a porta de entrada.
Do lado oposto ao da poltrona ficava o restante da sala, onde as coisas aconteciam, as pessoas sentavam, conversavam, bebiam. Eu ficava quase sempre ali, sentado, sozinho. Eu me isolava para não ter de partilhar a atenção de minha esposa com as pessoas que nos visitavam. Preferia assisti-la de longe, admirar a sua beleza única, singular, a alguns metros de distância. Ela parecia muito mais bonita assim, interagindo com outras pessoas. Quando recebíamos visitas, ou quando ela fazia algum tipo de comemoração em casa, eu observava o quão bela ela ficava conversando, compartilhando sua vida com os outros. Admirava desde a maneira como ela segurava a taça de vinho tinto, até a forma como colocava os longos cabelos loiros pra trás. Parecia uma deusa. Talvez o fosse, em verdade.

Mas em algumas noites eu não a admirava tanto assim. Em algumas noites, na verdade, eu a odiava. Principalmente quando eu saia para beber e, ao voltar, reparava que ela sempre desligava o telefone com muita pressa ao ouvir meus passos se aproximando da porta do nosso quarto, no fim do corredor. Isso me intrigava profundamente, afinal, pra que tanta pressa assim? O que aquela vadia estava escondendo de mim? Estava ela, por acaso, marcando encontros furtivos com um amante qualquer? Eu não duvido nada de que fosse isso, afinal, eu nunca pude dar a ela uma boa noite de amor. Ela era jovem, estava na flor da idade, e eu já era um velho fracassado quando nos conhecemos. Eu depositei nela tudo o que estava dentro de mim, e o único retorno possível foi ver a fatura do meu cartão de crédito chegando cada vez mais alta.

[Pausa para o café]

Numa dessas minhas saídas de beberrão, cheguei em casa e não a encontrei. Era por volta de vinte e uma horas do dia de hoje, mas ela, que deveria estar em casa preparando algo para que eu comesse ao regressar, não estava. Vasculhei cada canto, abri até mesmo os armários, mas ela não estava lá.

Às três da manhã, ela chegou. Cheirava a cigarro, à bebida, a sêmen recém fecundo, daquela textura e aroma tão indecorosos e luxuriantes, ariscos ao meu nariz, mas certamente deliciosos aos seus desejos libidinosos. Eu sabia. Ela tinha outro.
De onde eu estava, ela não conseguia me ver. Aproximou-se da lareira para apagá-la quando eu a surpreendi. Puxei-a pelos longos cabelos e joguei-a longe, próxima à mesinha de centro. O olhar que me foi lançado era de puro espanto, mas eu estava sendo engolido por uma onda de muita raiva. Empunhei a peixeira que estava aguardando por esse momento e não pensei duas vezes. Um. Dois. Três. Quatro. Oito. Foram oito golpes até que eu me dei por mim: aquele sangue que agora se espalhava pelo taco da sala e que manchara minhas mãos amaldiçoaria todo o resto da minha vida.


Narrativa escrita em meados de novembro de 2013.
*Colaboração de Fernando Borges Weimer.

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Pandemônio

A tua função em minha vida
É aguçar-me os sentidos:
Permitir que meus olhos
Sintam o gosto da tua boca.

Que minhas papilas gustativas
Admirem tuas mãos.

Que meus dedos estejam sempre atentos
Ao som dos teus pés limpando o sapato à porta.

Que meus ouvidos observem
Teu caminhar em direção a mim.

E que só o teu cheiro desfaça
Essa confusão
Que o temor do meu coração
Fez desse rebuliço amor, enfim.

sábado, 1 de fevereiro de 2014