Éramos nós dois ao mesmo passo em que só havia um "eu" e um "você", separados, dividindo o mesmo espaço-tempo. A linha que nos apartava era muito tênue, e eu não a enxerguei. O castanho esverdeado de minha íris só sabia refletir seus cabelos, que, quando tinham meus dedos lhos fazendo mil cachinhos, pareciam realçar a cor dos olhos que me fitavam até a alma.
Mas você, que nunca me contemplou, não se deu o trabalho de tampouco notar. Notar que era não somente eu, mas os milhares de adendos que carregava comigo. Era minha alma, minhas paixões, meus devaneios e loucuras, tudo isso borbulhava em sentimento. Sentimento que me faria matar e morrer.
Desfaleceria minha alma e meu corpo se, na sua ausência, o mundo se mostrasse exatamente da maneira que o é: frio e inabitável. Então, o calor que subitamente invadia meu peito tornaria-se um grande cubo de gelo, e essa seria apenas a ponta do iceberg. Não haveria mais os seus pés para guiar-me em meu tortuoso caminho, nem suas mãos para recobrir-me no inverno, nem seus olhos para iluminar-me inclusive na escuridão. Restaria, ao meu espírito, o deleite de uma vida eterna e solitária, no submundo da descompaixão.
Entretanto, quando cai a noite, inexoravelmente minhas pálpebras se fecham na intenção de assentir que meu ID e meu Superego entrem em consonância e me permitam encontrar você. No plano das ideias, dos sonhos e das esperanças, você ainda é como imaginei. Ainda é parte daquela inconsciência muito assertiva, que te pinta num quadro de movimentos automáticos que pouco dependem da criadora. Nesse quadro quase em branco, flores brotam do solo e desabrocham para que você passe. Assim fez meu coração, mas suas mãos só souberam tomá-lo na intenção de deixá-lo esfrangalhado. E, assim, incapaz de conceber qualquer afeição que pudesse surgir depois de você.
Esse foi o seu grande erro. Você não nos destruiu, pois não existia um "nós". Só existia quem eu era, com tudo aquilo que, compactado, era eu. E meu eu se confundia a todo tempo com a nossa imagem no espelho. Ao nos dividir, você me dizimou. E enterrou.
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